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Astrologia: uma falsa ciência – parte 2

 

Uma ciência autônoma?

Duvidemos até mesmo da própria dúvida
Anatole France

Os astrólogos consideram seus estudos como uma ciência autônoma, como se infere de Müller: “Ao ser confrontada com os padrões atuais do conhecimento, a estrutura de interpretação da astrologia é irracional. Percebe-se que ele não quer admitir a Astrologia como irracional. Prefere acusar os “padrões atuais do conhecimento”, ou seja, as teorias científicas, de não serem as corretas.

Entretanto, assim como as leis fundamentais da física (inclui aí a teoria da gravitação, já utilizada como argumento anteriormente), toda uma história de pesquisas e descobertas não podem ser desprezadas. Por conseguinte, nota-se que os astrólogos veem a Astrologia como uma ciência isolada, com suas próprias regras, e imune a leis já existentes.

Subjetividade

Superstições são hábitos mais do que crenças
Marlene Dietrich

Um fato inegável é que as interpretações feitas na Astrologia são sempre rodeadas de subjetivismo. Os maiores exemplos são os horóscopos e os mapas astrais. Esses últimos falam do que “possivelmente” pode acontecer a uma pessoa, a um país, uma firma, entre outros. Nada é certo por completo; o astrólogo está sempre com um passo atrás, tornando os mapas astrais uma infindável “cartola mágica”, onde todo tipo de argumento pode ser usado.

Com relação aos horóscopos, a subjetividade é também constante. Dão margem a interpretações diferentes e continua a não ter certeza dos acontecimentos. Disse Müller: “Interpretar um horóscopo não significa afirmar, taxativamente, que tal fato irá acontecer, mas a probabilidade de que aconteça”.

Horóscopos: uma infindável “cartola mágica”

Horóscopos: uma infindável “cartola mágica”

Então, isso tudo significa dizer que tais instrumentos (horóscopos e mapas) se limitam a reafirmar a probabilidade matemática. Indagar que algo é provável de acontecer é algo fácil de se fazer através da observação de indícios.

Por exemplo, se o tempo está nublado, existem muitas chances de que logo chegue uma chuva. Além disso, qualquer um pode dar conselhos, tais como “modere com a comida” ou “faça exercícios físicos”, já que são temas tão gerais que afetam a todos.

Uma nova era: a era de Aquários

Existem verdades que a gente só pode dizer depois de ter conquistado o direito de dizê-las
Jean Cocteau

Há cinco mil anos apareceram na Mesopotâmia os primeiros estudos sistemáticos do céu. Para o homem reconhecer as estrelas mais brilhantes, ele as agrupou e designou nomes, aparecendo as constelações.

O estudo da movimentação das estrelas era uma ferramenta essencial para essas civilizações remotas, pois marcava as estações e indicavam o período de plantar e colher. Ainda na antiguidade, a base numérica mais importante era a base 12, por isso foram criadas 12 constelações no caminho anual do Sol, o Zodíaco.

Posteriormente, os astrólogos indicaram que esses movimentos e sinais celestes influenciavam as vidas terrenas – como acontece hoje com as massas desinformadas ao se assustarem com alinhamentos, eclipses e conjunções planetárias, interpretando-os como presságios. Sendo assim, existe hoje a crença dos astrólogos e esotéricos em geral sobre uma nova Era. Uma Era que virá e criará novos valores à humanidade: a “Era de Aquários”.

Essa “nova” Era não é um fenômeno nada fantástico, mas apenas relacionado a lentíssima precessão dos equinócios, que os astrólogos não levam em consideração. A precessão é um entre muitos outros movimentos do planeta Terra, em que este muda lentamente a posição dos pólos, ao passo que em períodos de 27 mil anos dar-se uma volta completa.

Com essa contagem, as Eras ficam divididas em períodos de mais de dois mil anos. Atualmente estamos passando de uma Era para outra, ou seja, o Sol situado hoje na constelação de Peixes está mudando lentamente sua posição, movendo-se para a direção da sua vizinha Aquários.

Isto é um fenômeno raro e a única relação que causa aos humanos é a chegada da primavera no hemisfério Norte. Não existe qualquer relação com a chegada de novos valores à humanidade, nem a uma grande salvação ou ao alcance de novos degraus evolutivos.

A N ova Era estaria relacionada à precessão dos equinócios

A Nova Era estaria relacionada à precessão dos equinócios

A grande expectativa para os meios científicos é exatamente pela raridade deste fenômeno. (A chegada da primavera se dá apenas no hemisfério Norte, sendo que no hemisfério Sul inicia-se o outono – fato desconhecido quando a Astrologia foi criada, ao pensarem que as estações eram iguais em todo o mundo). Como disse Luiz Lima do Nascimento:

“É o fascínio pelo céu e pelo desconhecido a única força misteriosa e poderosa que nos excita com a nova Era. O nosso misticismo natural é que nos atrai para estórias sobre as mudanças que estão por vim. Alguns, mais fracos, não conseguem sozinhos viver suas vidas. Precisam que ‘deuses’ enviem sinais (…) para orientar suas vidas, e consultar ‘oráculos’ (esotéricos e horóscopos) para tirar forças e continuar seu dia a dia”.

Assim sendo, encontramos astrólogos como absolutos neoplatônicos, com uma alta dosagem de literatura salvífica, ao interpretar meros fatos celestes como transições de Eras inovadoras e a chegada de um moderno “Jardim do Éden”.

Considerações finais

Analise cada pedaço de uma pseudociência e você encontrará um cobertor de segurança, um dedo polegar para chupar. E o que nós temos para oferecer em troca? Incerteza! Insegurança!
Isaac Asimov

Diante dos fatos, fica evidente que a Astrologia não tem sustentáculos eficientes para comprovar as suas técnicas. Também não se pode deixar de mencionar que esta pseudociência é hoje em dia uma atividade rentável. Basta ver, por exemplo, os jornais escritos possuírem uma coluna diária sobre o assunto, enquanto que só alguns poucos mantêm uma nota semanal de Astronomia.

É abundante a existência de astrólogos “profissionais” que cobram abusadamente ao fazer mapas astrais, fixando-se em temas materiais ou matrimoniais, descarregando um fluxo ininterrupto de bens benéficos a vítima e, não menos, amaciam o ego desta.

Pensar que isso tudo está muito próximo de se extinguir é equivalente a acreditar cegamente, sem filtros críticos, em tal falsa ciência. A luz do conhecimento está muito longe de iluminar as mentes menos favorecidas e criar sólidas conexões neurais. Infelizmente, ainda é um sonho e não sabemos se chegaremos lá.

Referências

[1] MÜLLER, Juan Alfredo Cesar; MÜLLER, Léa Maria Pileggi. O que é Astrologia. São Paulo: Brasiliense, 1985. (Coleção Primeiros Passos, 22).

[2] RUDHYAR, Dane. Da Astrologia humanista à Astrologia transpessoal. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Antares, 1985.

[3] SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Tradução de Rosaura Eichemberg. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

[4] WEINBERG, Steven. Sonhos de uma teoria final: a busca das leis fundamentais da natureza. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

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